NGAP da ICAO e os desafios da aviação para o futuro
A aviação civil mundial enfrenta um dos maiores desafios da sua história: crescer de forma segura, sustentável e tecnologicamente avançada, garantindo simultaneamente a disponibilidade de profissionais qualificados para operar o sistema aeronáutico.
É neste contexto que o programa NGAP — Next Generation of Aviation Professionals, da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO/OACI), assume uma importância estratégica.
A grande questão já não é apenas saber quantas aeronaves serão necessárias no futuro, mas também quem irá pilotá-las, mantê-las, controlar o tráfego aéreo, gerir os aeroportos e supervisionar a segurança de um sistema cada vez mais complexo.
1. O que é o programa NGAP da ICAO?
O NGAP é uma iniciativa internacional destinada a assegurar que a aviação dispõe de profissionais suficientes, competentes e preparados para responder às necessidades atuais e futuras do setor.
O programa procura promover três objetivos fundamentais: atrair, formar e reter talentos.
A sua atuação abrange várias profissões, incluindo pilotos, controladores de tráfego aéreo, técnicos de manutenção, engenheiros aeronáuticos, tripulantes de cabine, especialistas em segurança operacional, gestores aeroportuários e profissionais de tecnologias aeronáuticas.
Em 2016, a 39.ª Assembleia da ICAO adotou a Resolução A39-29, reforçando a importância de um planeamento estratégico dos recursos humanos.
Posteriormente, em 2025, a Resolução A42-24, sobre o desenvolvimento global de talentos na aviação, ampliou o âmbito do NGAP, reconhecendo que a renovação da força de trabalho não depende exclusivamente dos jovens, mas também da requalificação, reconversão e valorização de profissionais de diferentes gerações.
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2. A dimensão do desafio: quantos profissionais serão necessários?
Segundo as projeções apresentadas na estratégia NGAP aprovada pela ICAO em dezembro de 2025, o setor poderá necessitar, até 2037, dos seguintes novos profissionais:
554 mil+
Pilotos
666 mil
Técnicos
107 mil
Controladores de tráfego aéreo
923 mil
Tripulantes de cabine
Valores globais aproximados para 2037, apresentados pela ICAO com base no Doc 9956. São necessidades projetadas de novos profissionais, não vagas atualmente abertas.
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A magnitude destas necessidades demonstra que o crescimento da aviação não pode depender apenas do investimento em aeronaves e infraestruturas.
Será também necessário ampliar a capacidade das escolas aeronáuticas, centros de formação, universidades e organizações responsáveis pela certificação e supervisão dos profissionais.
Além disso, o recrutamento, por si só, não resolve o problema: a retenção de profissionais experientes, a transferência de conhecimentos e a formação contínua são igualmente fundamentais.
3. Os quatro pilares estratégicos do NGAP
A estratégia NGAP, revista em dezembro de 2025, organiza-se em quatro grandes áreas de atuação.
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1. Promoção da aviação e partilha de conhecimento
Divulgar as carreiras aeronáuticas, aproximar os estudantes da indústria, estimular o interesse pelas áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e partilhar boas práticas.
2. Previsão, planeamento e monitorização dos recursos humanos
Antecipar necessidades de pessoal, analisar a evolução das competências, identificar carências e desenvolver estratégias nacionais e regionais de formação e recrutamento.
3. Educação e formação
Aproximar os programas de ensino das necessidades operacionais, melhorar o reconhecimento internacional de qualificações e promover a formação baseada em competências, estágios, bolsas e aprendizagem contínua.
4. Mobilização de recursos e desenvolvimento de capacidades
Apoiar os Estados com menos recursos, mobilizar financiamento, desenvolver centros de formação e estabelecer parcerias entre governos, autoridades aeronáuticas, empresas e instituições académicas.
4. Os principais desafios da aviação para o futuro
4.1. Crescimento do tráfego aéreo e segurança operacional
Passageiros em 2024
4,6 mil milhões
Projeção para 2050
12,4 mil milhões
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Projeções da ICAO para o tráfego anual mundial de passageiros.
Fonte: Plano Estratégico ICAO 2026–2050.
2050
O crescimento esperado do tráfego irá aumentar a pressão sobre aeroportos, espaço aéreo, sistemas de navegação, autoridades aeronáuticas e organizações de manutenção.
O desafio será acomodar esse crescimento sem comprometer a segurança operacional (safety).
A ICAO estabeleceu, no seu Plano Estratégico 2026–2050, a ambição de alcançar zero fatalidades na aviação internacional decorrentes de acidentes e atos de interferência ilícita.
2050
Isso exige profissionais preparados para gerir riscos, tomar decisões em ambientes complexos e manter uma cultura de segurança sólida.
4.2. Inteligência artificial, automação e transformação digital
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A transformação tecnológica será um dos fatores com maior impacto nas profissões aeronáuticas.
A inteligência artificial, os sistemas autónomos, a análise avançada de dados, os drones e a mobilidade aérea avançada poderão alterar significativamente as atividades tradicionais.
Por exemplo, os pilotos terão de compreender sistemas cada vez mais automatizados; os controladores de tráfego aéreo poderão utilizar ferramentas inteligentes de apoio à decisão; e os técnicos de manutenção dependerão crescentemente de sistemas de diagnóstico digital e manutenção preditiva.
O desafio não será apenas aprender a utilizar novas tecnologias, mas saber supervisioná-las, reconhecer as suas limitações e intervir quando necessário.
A ICAO tem salientado que a inteligência artificial e a automação devem reforçar a competência humana, em vez de serem encaradas simplesmente como substitutas dos profissionais.
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4.3. Sustentabilidade e descarbonização
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A aviação terá de encontrar formas de continuar a crescer, reduzindo simultaneamente o seu impacto ambiental.
A ICAO estabeleceu uma meta global aspiracional de emissões líquidas zero de carbono na aviação internacional até 2050.
Para avançar nessa direção, serão necessários investimentos em combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), novas tecnologias de propulsão, eficiência energética e otimização das operações de voo.
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+1
O NGAP desempenha aqui um papel essencial: será necessário formar engenheiros, técnicos, pilotos, gestores e especialistas ambientais capazes de trabalhar com essas soluções.
A sustentabilidade deixará progressivamente de ser apenas uma preocupação ambiental, passando a integrar as competências técnicas e de gestão exigidas aos profissionais da aviação.
4.4. Diversidade, igualdade de oportunidades e acesso à formação
Um dos desafios centrais do NGAP é tornar as carreiras aeronáuticas acessíveis a pessoas de diferentes origens sociais, económicas e culturais.
Na estratégia NGAP de dezembro de 2025, a ICAO assinala que as mulheres representam apenas cerca de 5,1% do conjunto de profissionais das categorias de pilotos, controladores de tráfego aéreo e técnicos consideradas nas suas estatísticas.
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Paralelamente, os elevados custos da formação, a disponibilidade limitada de escolas especializadas e as dificuldades de financiamento impedem muitos candidatos de iniciar uma carreira aeronáutica.
As bolsas de estudo, os programas de mentoria, as parcerias com universidades e o financiamento da formação podem ajudar a ultrapassar estas barreiras.
Há também um desafio geográfico: os países com menos recursos podem perder profissionais qualificados para mercados que oferecem remunerações e oportunidades mais competitivas.
4.5. Cibersegurança e resiliência do sistema aeronáutico
A crescente digitalização da aviação aumenta também a exposição a ameaças informáticas.
Os aeroportos, sistemas de navegação aérea, plataformas de comunicação e operações das companhias aéreas dependem de infraestruturas digitais interligadas.
A ICAO dispõe de uma estratégia específica para a cibersegurança da aviação, que inclui cooperação internacional, legislação, formação, gestão de incidentes e desenvolvimento de uma cultura de segurança digital.
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No futuro, os profissionais aeronáuticos deverão possuir maior literacia digital e compreender como os riscos tecnológicos podem afetar a segurança e a continuidade das operações.
4.6. Retenção de talentos e bem-estar profissional
A escassez de profissionais não pode ser resolvida apenas formando mais pessoas.
Também será necessário assegurar condições que incentivem os profissionais a permanecer na indústria.
Horários exigentes, fadiga, pressão operacional, mobilidade internacional e equilíbrio entre vida profissional e pessoal constituem fatores relevantes para a retenção de talentos.
Neste sentido, a formação contínua, a progressão profissional, a liderança e as políticas de bem-estar deverão fazer parte das estratégias NGAP.
5. O que deve mudar na formação dos profissionais aeronáuticos?
O modelo tradicional de formação, muito centrado na aquisição inicial de conhecimentos e qualificações, terá de evoluir para uma abordagem de aprendizagem ao longo de toda a carreira.
| Modelo tradicional | Modelo orientado para o futuro |
|---|---|
| Formação inicial como etapa principal | Atualização contínua de competências |
| Ênfase no conhecimento técnico | Conhecimento técnico, competências humanas e digitais |
| Programas de ensino relativamente estáticos | Currículos adaptados às tecnologias emergentes |
| Percursos profissionais mais rígidos | Mobilidade e reconversão profissional |
| Foco na qualificação individual | Colaboração, liderança e gestão de riscos |
Esta evolução não significa diminuir o rigor técnico. Pelo contrário, exige combinar os conhecimentos aeronáuticos fundamentais com competências em tecnologia, comunicação, pensamento crítico, tomada de decisão e adaptação à mudança.
A formação baseada em competências, as simulações avançadas, a aprendizagem digital e o contacto direto entre estudantes e organizações aeronáuticas terão um papel crescente.
6. A importância do NGAP para o futuro da aviação
A relação entre o NGAP e os desafios futuros pode ser sintetizada da seguinte forma:
Crescimento e transformação da aviação
Mais tráfego, novas tecnologias, sustentabilidade e segurança
NGAP — Desenvolvimento do capital humano
Atrair, formar, requalificar e reter profissionais
Segurança operacional
Sustentabilidade
Inovação tecnológica
Conectividade global
7. Conclusão
O programa NGAP representa uma mudança importante na forma como a comunidade aeronáutica encara o seu futuro.
Durante décadas, a evolução da aviação foi frequentemente associada ao desenvolvimento de aeronaves mais rápidas, eficientes e seguras. Atualmente, torna-se cada vez mais evidente que o progresso tecnológico, por si só, não é suficiente.
O verdadeiro desafio consiste em garantir que o desenvolvimento das competências humanas acompanha a velocidade da transformação tecnológica e operacional da indústria.
A NGAP assume, por isso, uma dimensão que ultrapassa o recrutamento de jovens: é uma estratégia de desenvolvimento de capital humano, cooperação internacional e sustentabilidade do sistema aeronáutico.
O sucesso dependerá do compromisso conjunto dos Estados, das autoridades de aviação civil, das companhias aéreas, dos aeroportos, das instituições de ensino e dos próprios profissionais.
Em última análise, a aviação do futuro será certamente mais digital, automatizada e ambientalmente exigente. Mas continuará a depender da capacidade humana de exercer julgamento, gerir riscos, inovar e preservar a segurança.
A mensagem central é simples: não haverá aviação sustentável no futuro sem profissionais qualificados, motivados e preparados para os desafios desse futuro.
Documentos oficiais recomendados:
Este tema também se presta a uma apresentação académica, palestra ou conferência aeronáutica, especialmente se for desenvolvido em torno de uma questão central: «Estamos a preparar hoje os profissionais de que a aviação de 2050 vai precisar?»
| ano | passageiros |
|---|---|
| 2024 | 4,6 |
| 2050 | 12,4 |










