É preciso viver, é preciso experimentar. É a experiência
que abre a consciência.
Para Jung, o pai da psicologia
transpessoal e criador da psicologia analítica, é necessário desconfiar de uma
sabedoria que não é fruto da reflexão e da maturidade obtida pelos próprios
esforços.

Prezado Eduardo, antes de mais
nada gostaríamos de agradecer por sua disponibilidade em nos contar um pouco da
sua trajetória na aviação. Com certeza,
sua experiência que será aqui compartilhada servirá de estímulo para aqueles
que continuam na aviação e para aqueles que pretendem iniciar uma carreira ou
estão iniciando neste meio.
Eduardo, gostaríamos que você
iniciasse fazendo uma breve apresentação da sua pessoa e nos contando como iniciou sua
carreira.
Eduardo: - Meu nome é Eduardo
Pires Correa. Sou Engenheiro Eletrônico, com Pós-graduação em Administração
Empresarial e desenvolvi uma sólida carreira na área de manutenção como
Supervisor de Manutenção de Aeronaves, ao longo destes 43 anos de profissão.
Também atuei como Gerente em outras áreas produtivas, como Inspeção, Engenharia
e Suporte ao Cliente, contribuindo para resultados relevantes da empresa.
Iniciei a minha carreira em 1974, como Auxiliar de Serviços de Engenharia na
empresa Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. Em 1977 fui promovido a Engenheiro,
onde era responsável pela manutenção preventiva e corretiva das aeronaves, bem
como na elaboração de ordens de Engenharia, as quais eram utilizadas para
modificações dos sistemas das aeronaves, a fim de torná-los mais eficientes.
Neste mesmo ano me casei, sendo que a minha primeira filha nasceu em 1978.
Priemeiro desafio: O Extraordinário Caravelle
Blog: - Eduardo, no início da
década de 80 houve a junção da Cruzeiro
com a Varig. A partir daí como foi sua história?
Eduardo: - Em 1980, fomos comprados pela VARIG e fui
convocado para realizar um curso de familiarização da aeronave A300 na fábrica
em Toulouse-França. Fiquei lá por 3 meses. No final de 1980, nasceu a minha
segunda filha. Fiz diversos cursos nas fábricas da Boeing, MC Douglas e
fabricantes de componentes nos EUA. Em 1999 implantamos o sistema de qualidade
e efetuamos treinamento de qualidade total para gerentes, ministrado pela
Fundação Christiano Otoni, ligada a UFMG. Neste mesmo ano fui convidado a
ocupar o cargo de Gerente da Inspeção. Com a implantação da Qualidade Total,
criamos índices de Controle na Manutenção, bem como a Força Tarefa 1, que
monitorava os atrasos técnicos de voo das aeronaves.
PP-CLA : Primeira Aeronave Airbus A300 na Antiga Cruzeiro
Blog: - Por falar em Força
Tarefa-1, que foi um trabalho que teve origem com a implantação da filosofia de
Qualidade Total na Varig, nos explique um pouco mais sobre como funcionava e
quais os resultados obtidos.
Eduardo: - Era uma equipe
onde tínhamos um coordenador para cada frota de aeronaves e eu era o coordenador da frota MD-11, bem
como acumulava a função de coordenador geral da FT1.
Quando implantamos essa ferramenta, a situação da frota MD11, por exemplo, tinha muitos relatórios de
atrasos técnicos e nossa missão era tentar reduzir o número de atrasos com o
menor custo possível. Utilizamos então o
grupo de engenheiros para mapear as causas dos atrasos e fizemos várias modificações
que surtiram efeitos positivos, mas ainda não estávamos satisfeitos.
Durante as análises que fizemos, descobrimos um item que estava
contribuindo para que ocorressem os atrasos. Descobrimos que havia um gap no
treinamento dos mecânicos de Guarulhos. Também notamos que havia vários atrasos
de voo no horário próximo das 18:00, quando havia troca de turno.
DC-10: O pioneiro com instalação do sistema de anticolisão TCAS II na década de 90
Blog: - Muito interessante.
Isso demonstra que ao separarmos um tempo exclusivo para analisarmos os
problemas sobre uma ótica mais macro ou micro, dependendo do que seja, encontramos soluções que antes não eram
percebidas. E a partir dessa descoberta, o que foi feito?
Eduardo: - A partir dessa
análise, comprometi-me a realizar um treinamento para os mecânicos, bem como
adequamos a escala aos horários de voo. Resultado,: conseguimos ser a segunda
empresa no mundo em pontualidade, perdendo apenas para a KOREAN, sendo
inclusive reconhecido pelo fabricante da aeronave.
Blog: -Realmente parece ter
sido uma grande conquista não só para a equipe e para a empresa ,mas creio que
também tenha sido no campo pessoal como profissional de aviação, não foi?
Eduardo: - Esta conquista me
deu o prêmio de gerente do ano 2000 da VARIG, sendo premiado com um relógio e
um troféu. Prêmios simbólicos, mas
que me deram grande satisfação pelo reconhecimento ao trabalho realizado.
Blog: - Muito legal. Quando a empresa reconhece o esforço do
profissional isso sem dúvida é um grande fator motivacional. Você poderia nos
contar mais sobre sua carreira?
Eduardo: - Sim, claro.
Além disso, participei do aceite técnico de 15 aeronaves MD-11 ao redor
do mundo. Nesta missão, pude aprimorar a competência de negociação lidando com
diversas culturas diferentes. Durante o recebimento de uma aeronave em Jacarta,
tive o seguinte cenário: Os três motores
da aeronave não atendiam as condições de contrato e não possuíamos motores de
reserva disponíveis para substituição. Tive que pensar rápido para dar uma solução ,
pois precisávamos trazer a aeronave para o Brasil. Entrei em contato com a
nossa oficina de motores no Rio de Janeiro e montamos um cronograma de revisão
dos motores em nossas oficinas. Resultado: a proposta foi aceita e conseguimos
um montante de 8,5M de dólares em serviços para a nossa empresa.
Eduardo agachado no centro em foto com a turma do curso de B737 na Boeing
Blog: - Grande! Além de
resolver uma situação de imediato ainda conseguiu um bom negócio para a
empresa. Mas acredito que não tenha parado por aí, correto?
Eduardo: - Em 2001 participei
de um recrutamento interno para a gerência de engenharia, sendo escolhido para
o cargo. Em 2002, terminei o meu curso de pós-graduação em Administração
Empresarial. Mais tarde, a VARIG criou uma empresa de manutenção chamada VEM
(VARIG ENGINEERING AND MAINTENANCE), a qual se dedicou também a efetuar a
manutenção de aeronaves de terceiros. Fui convidado a assumir o cargo de
Gerente de Suporte ao Cliente, onde pude organizar o meu staff e
infraestrutura. Fiquei neste cargo até 2009, quando saí da empresa.
Blog: - Após sua saída da VEM
você continuou atuando na aviação?
Eduardo: - Meu último desafio
foi na LASA Prospecções. Lá, assumi o cargo de Supervisor de Manutenção, onde
gerenciava o Suprimento, compra de material, documentação das aeronaves, plano
de manutenção, mecânicos e hangar. Era responsável pela manutenção dos
equipamentos de suporte ao hangar, planejava e acompanhava as tarefas de
manutenção preventiva e corretiva, atuava no plano de manutenção, a fim de adequá-lo
a realidade da empresa, cumpria o programa de QSMS, uma vez que éramos uma
empresa ISO 9000,14000 e 18000. Aplicava os índices de desempenho da qualidade
da manutenção, focando na melhoria contínua, realizava auditorias internas e
externas e avaliação e qualificação de fornecedores. Nessa posição, liderei o
projeto de certificação da Oficina junto à ANAC, para execução de inspeções na
seção quente dos motores. Liderei também o projeto de alteração do plano de
manutenção dos atuadores de freio e da revisão dos motores.
Blog: -E no momento, você
ainda está ligado a aviação? Quais suas perspectivas para o mercado da aviação
nos próximos 10 anos?
Eduardo: - No momento estou
em busca de recolocação, pois embora esteja no grupo dos com mais de 50 anos,
ainda tenho muito a oferecer e aprender. Quanto ao mercado, vejo com bons olhos
a construção de hangares de Manutenção por parte da AA e TAM em Guarulhos.
Blog: - Que conselho você
daria para os engenheiros que estão iniciando a carreira na aviação ou que pretendem
entrar nessa área?
Eduardo: - Quem entra neste
mercado é porque tem paixão pela aviação. Como falam, a aviação é uma “cachaça”
que, depois de experimentada, não se quer largar. Sinto a falta da escolinha de
formação de mecânicos que tínhamos na CRUZEIRO, onde o garoto entrava com 14
anos, a fim de aprender a profissão. Formei muitos mecânicos e Engenheiros ao
longo da minha carreira, que hoje estão espalhados em outras organizações.
Sinto-me orgulhoso por ter participado e colaborado com a Manutenção da VARIG,
que, até hoje, é reconhecida como uma das melhores.
Agradecemos ao Eduardo por ter nos concedido esta entrevista e por nos agraciar com um pouco da sua história. Acreditamos que essa pequena parte da história contada pelo Eduardo faça parte de um imenso acervo da nossa aviação brasileira e nos é apresentada como exemplo para olharmos o futuro sem esquecermos do passado. É preciso aprendermos com o que já houve de melhor na aviação como as empresas VARIG e CRUZEIRO e inovar a aviação atual .
Se você também faz parte da história da aviação e quer compartilhar um pouco da sua experiência conosco, envie um email para josefernandesinst@gmail.com que lhe passaremos melhores detalhes de como participar do AviationExperience.
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